Silêncio
Quando o barulho que você quer não está ali

O relógio do celular marcava 1h10 quando resolvi sentar na varanda. Aquela cadeira comemorativa do São Paulo já está mais desgastada do que a imagem do clube. Faz barulho.
Mais barulho do que o silêncio da rua.
Estou derretendo. Qualquer ser humano deve estar. Faz calor em São Paulo. Como tenho excelentes ideias, cinco minutos atrás fiz uma mistura divina: dois dedos de café que tinha sobrado, duas colheres de leite em pó, duas colheres de Nescau, água até o topo da caneca, adoçante, um minuto e meio de micro-ondas. Vai me fazer um mal do cacete. Derreto, claro.
Passa um carro. Uma SUV branca genérica. Sinto certa inveja, queria estar num rolê qualquer. Passam rápido. O carro e a inveja. Silêncio.
O céu até que está bonito, o que é uma opinião curiosa. Porque a noite é diferente na capital. Nunca é nooooite de fato. Sempre tem uma claridade. Ainda assim consigo ver uma meia dúzia de estrelas, praticamente um recorde para a região. Luzes de Natal aqui e ali.
Passa a moto do vigia noturno. Não tem nada do condomínio sobre ele, então, não é o “meu vigia”. Aquele apito tradicional. O maior barulho da noite até então. Gostei do termo “meu vigia”. Silêncio.
Dos 14 prédios cravados da minha paisagem, conto 22 janelas acesas. Sábados já foram mais animados no coração da Zona Oeste.
Passa outra SUV branca. Não tenho inveja. Silêncio.
Antes da varanda tinha emendado uma boa sequência; um vídeo de humor auto-depreciativo, seguido de uma possível explicação de “Bohemian Rhapsody”, uma música devastadora da Sia (abaixo) e uma dissecação animadíssima de “Don’t Let Me Be Misunderstood”, do Santa Esmeralda.
Silêncio. Lembro de Manuel Bandeira e seu “Pneumotórax”, “A vida inteira que podia ter sido e que não foi.”
Um cachorro resolve latir. Mas não se empolga também. Silêncio.
Pneumotórax, que merda de palavra. Justamente este é o nome do poema, justamente agora. Para fechar com chave de ouro o ano que já passou de mil dias. A frase é uma martelada daquelas.
A mente a mil, estalando, e o silêncio dói. Escreveria “silêncio ensurdecedor” se não fosse um clichê daqueles, rápido e rasteiro, tiro e queda (alô Sérgio Rodrigues e seu necessário, hilário “Os clichês da língua são como os gatos, têm sete vidas”).
Ouvi “Sometimes I Feel Like Screaming” voltando de Santo André há algumas horas. Já foi a um show do Deep Purple, tunê 30 anos. Aramaçãn, claro. Dei uma cabeçada sem querer em uma pessoa. Boa história, conto outro dia. Meia dúzia de pessoas no trem. Vim de pé. Foram algumas repetições.
Silêncio. Queria estar urrando como minha mente está agora, mas tudo é só silêncio. Nem o ar rarefeito da Pompeia quer aparecer.
Passa uma moto. Inexplicavelmente lenta e silenciosa. Enquanto digito “inexplicavelmente” sem o corretor automático outro veículo com duas rodas atravessa a rua, com o barulho habitual. Sinto até alívio com o zunido. E, claro, silêncio.
O que eu queria era um pouco de barulho. Uma voz firme, ativa. Um papo bacana. Uma reclamação, talvez, porque ninguém é de ferro (tome mais clichê). Mas o especial de hoje foi só silêncio.
“A vida inteira que podia ter sido e que não foi”. Não dá para voltar no tempo um segundo sequer. Piscou, passou, já era. Serve para tudo. Para você aí, dono do mundo. Para mim também.
Outra moto. Quantas existem em São Paulo? A resposta é 5,7 milhões.
No começo, no meio e no fim de tudo, inclusive no início de uma madrugada calorenta em um fim de ano modorrento, o que vive é o silêncio. Silêncio que tanto amo, prezo, idolatro. Mas, hoje, só machuca.
O relógio do celular marca 1h48.
Usei um prompt simples em três IAs: “Crie uma imagem com essa premissa: qual é o som do silêncio?”, e todas são péssimas, não?
Versão ChatGPT:
Versão CoPilot:
Versão Gemini:






O que o Steve Morse fez nessa música é muito, muito bonito